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Gir Leiteiro, raça e recurso genético.

15 Fevereiro 2009

Dando continuidade às discussões iniciadas pelo Dr. Ivan Ledic, gostaria de apresentar um conceito de raça que consta em documentos da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). Em livre tradução, “raça é tanto um grupo subespecífico de animais domésticos com características externas definíveis e identificáveis que permita ser separado de outros grupos similarmente definidos dentro de uma mesma espécie por avaliação visual, ou um grupo para o qual a separação geográfica e/ou cultural de grupos fenotipicamente similares conduziu à aceitação de sua identidade em separado”. Mas o mais interessante vem a seguir “as raças têm sido desenvolvidas de acordo com diferenças culturais e geográficas, e para atender as necessidades humanas para alimentação e agricultura. Neste caso, raça não é um termo técnico.” Por fim, o documento conclui que “raça é mais frequentemente aceita como um termo cultural do que técnico”.

                Mesmo concordando com as definições apresentadas pelo Dr. Ivan Ledic, esta longa introdução tem como objetivo reforçar a consideração levantada pelo Dr. Alvaro Restrepo, ou seja, creio que a conceituação de recurso genético nos conduz a uma reflexão mais profunda do que o Gir Leiteiro representa. Recurso sim, em todas suas conceituações lingüísticas, seja como alternativa, auxílio, remédio ou mesmo, patrimônio. Sem dúvida o Gir Leiteiro representa um bem que dispomos para a pecuária leiteira tropical. E mais, uma alternativa aos modelos de produção predominantes no mundo, o “remédio” que auxilia a mudar esta lógica.

                Na última conferência sobre comércio global e bem-estar animal, realizada em Bruxelas em janeiro deste ano, a União Européia sinalizou para incluir as regras de bem-estar animal como normas da OMC (Organização Mundial do Comércio). Independentemente do mérito desta proposição, que certamente está pautada muito mais em questões comerciais do que preocupações com os próprios animais, questiono como seria a produção leiteira nessa imensa faixa tropical – apenas com raças européias, em constante estresse térmico ou confortavelmente instaladas em estábulos climatizados com, altos custos de produção? Ufa! Temos o Programa Nacional de Melhoramento Genético do Gir Leiteiro (PNMGL), estabelecido há 24 anos.

                Àqueles que porventura desconhecem o pioneirismo do PNMGL, na última semana do mês passado estive em Roma, representando o MAPA e compondo a delegação brasileira na 5ª Reunião do Grupo Técnico de Trabalho Intergovernamental sobre Recursos Zoogenéticos para Alimentação e Agricultura, da FAO. Na oportunidade, recebi em primeira mão um documento com propostas de diretrizes para estabelecimento de programas de melhoramento genético para sistemas de produção com baixo e médio aporte de insumos. Felizmente, nosso país aparece como exceção dentre os países em desenvolvimento, por possuir atividades de melhoramento genético.

                Refletindo sobre a colocação do Sr. Euclides Marques, creio que a busca de material genético na Índia por parte de brasileiros, mesmo sabendo que os níveis de produção por lá atualmente são inferiores aos nossos, justificar-se-á no longo prazo. A incorporação de variabilidade genética para ser “lapidada” em nosso processo de seleção, como já o foi, certamente será útil. Neste ponto, aproveito para fazer referência e parabenizar o artigo postado pelo Sr. Sten Johnsson (A questão da raça x seleção). A título de informação esclareço que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento estuda um plano de expansão dos controles leiteiros oficiais, o que certamente fortalecerá os programas de melhoramento genético e permitirá incrementar as pesquisas de associação de características de interesse econômico com genes ligados a marcadores moleculares. 

                Encerrando minha participação, lembro que a previsão do Banco Mundial de um imenso crescimento na demanda mundial de alimentos para 2030, em relação ao leite, implica em necessidade de crescimento do número de vacas ordenhadas e da produtividade das mesmas. Apesar de sabermos que a maioria das explorações leiteiras no Brasil (e em toda faixa tropical) é conduzida com base em pastagens (como minha própria seleção), sinceramente muito me conforta saber que temos sim, dentro da raça Gir, vacas capazes de alcançarem produções expressivas, em níveis próximos das vacas Holandesas. Apesar da polêmica que isto possa suscitar, uma vez que para atingirem altas lactações as vacas Gir Leiteiro são submetidas a condições de manejos também diferenciadas, relembro o que disse acima – pelo menos temos uma alternativa! Isto significa que o Gir Leiteiro, recurso genético, atende e atenderá a necessidade de aumento na produção de alimentos, seja a pasto ou estabulado, seja puro ou em cruzamento, mas certamente proporcionando animais mais adequados às nossas condições, o que, comparativamente, resultará em menores custos de produção e mais competitividade.

 Artigo escrito em 09/02/2009 para o Blog GirBrasil. 

Veja no blog o artigo publicado e os comentários:

http://girbrasil.blogspot.com/2009/02/artigo-gir-leiteiro-raca-e-recurso.html.  

No link a seguir, este artigo encontra-se traduzido para espanhol pelo Dr. Ivan Ledic e foi publicado no Blog PlanetaCebu:

http://planetacebu.blogspot.com/2009/02/gyr-lechero-raza-y-recurso-genetico_11.html.

 

Endogamia na raça Gir

4 Março 2008

Tese de mestrado de João Cruz Reis Filho, titular da Fazenda Sumaúma, defendida em 2006 no Programa de Pós-Graduação em Genética e Melhoramento da Universidade Federal de Viçosa .

Clique aqui para fazer o download da versão completa da tese.

A Utilização de Cruzamentos na Pecuária Leiteira Tropical *

17 Janeiro 2008

A produção de leite utilizando-se exclusivamente raças européias altamente especializadas, como o Holandês e o Jersey, não tem sido o melhor caminho para os produtores de leite. Isto se deve a vários motivos, mas talvez o principal seja que não existe em nosso país uma política clara e objetiva para o setor.

O pagamento do leite pela qualidade, ainda em fase de implantação, mais pune o leite de baixa qualidade do que premia o de boa qualidade. O descarte de matrizes e machos ainda compõe uma significativa parcela da receita obtida na atividade leiteira, não permitindo que seja desprezado. Além disso, animais altamente especializados são altamente exigentes, tanto em manejo, sanidade e nutrição, o que, via de regra, nossos produtores pecam, não porque o querem, mas por falta de informação ou mesmo de recursos para investir na atividade. Outro ponto importante a se considerar é que, em condições tropicais, estes animais estarão com freqüência sob estresse.

Por outro lado, a produção de leite com zebuínos puros, em especial o Gir Leiteiro, seria uma opção interessante, por se tratar de um animal altamente adaptado e produtivo em condições tropicais. Entretanto, a baixa disponibilidade, em quantidade, de matrizes de alto potencial genético e seu alto preço no mercado restringem bastante esta alternativa para a maciça maioria de produtores de leite.

A alternativa mais plausível, portanto, é a utilização de cruzamentos entre as raças européias e zebuínas. Um fato importante é que hoje, a despeito do passado, dispomos de animais da raça Gir Leiteiro, que além da rusticidade fornece aos descendentes do cruzamento genética para produção de leite, haja visto lactações na raça superiores aos 15.000 Kg de leite e as avaliações genéticas (sumários, teste de progênie).

Aproveitando-se a boa base européia nos rebanhos leiteiros, o cruzamento com o Gir Leiteiro, produz um animal equilibrado, adaptado ao clima tropical e suas adversidades (ecto e endoparasitas, irradiação, etc), capaz de produzir leite em quantidade a pasto, com custo de produção mais baixo e maior geração de receita, advindas do descarte de animais.

* escrito em 05/04/04 para o CPR News  

ASSOCIAÇÃO ENTRE PRODUÇÃO DE LEITE, IDADE AO PRIMEIRO PARTO E INTERVALO DE PARTOS EM REBANHOS GIR LEITEIRO *

17 Janeiro 2008

RUI DA SILVA VERNEQUE, ROBERTO LUIZ TEODORO, MARIO LUIZ MARTINEZ, MARIA GABRIELA C. DINIZ PEIXOTO, MARCOS VINICIUS G. B. DA SILVA, JOAO CRUZ REIS FILHO

INTRODUÇÃO

 A produção de leite (PL) é a característica de maior importância econômica na atividade leiteira. A idade ao primeiro parto (IPP) e intervalo de partos (IP) são características reprodutivas também importantes, uma vez que vacas boas produtoras de leite, com baixa idade ao primeiro parto e reduzidos intervalos de partos produzirão mais crias e alta produção de leite na vida produtiva, podendo ser animais mais lucrativos para os sistemas de produção de leite. Estudos envolvendo associações genéticas entre essas características, usando-se dados de rebanhos zebuínos são escassos na literatura. A sua realização poderá beneficiar a atividade como um todo, bem como auxiliar na condução dos programas de seleção. A idade ao primeiro parto é frequentemente tardia nos países de clima tropical, assim como o intervalo de partos. Lobo (1998) observou médias de 59 meses e 577 dias, respectivamente para IPP e IP e herdabilidades de 0,29±0,09 e 0,14±0,01, para essas mesmas coracterísticas, em dados de rebanhos da raça Guzerá. Wenceslau et al. (1996) estimou em 0,56 a herdabilidade da idade ao primeiro parto em 573 vacas da raça Gir e correlação genética entre produção de leite e idade ao primeiro parto em 0,49. O objetivo deste trabalho foi estimar herdabilidades, correlações genéticas e associações entre os valores genéticos para PL aos 305 dias de lactação e para IPP e IP, usando-se informações de rebanhos participantes do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL).

MATERIAL E MÉTODOS

Para realização do trabalho foram usados dois arquivos de dados. Um contendo informações para estudo de associações entre produção de leite até 305 dias de lactação (PL305) e idade ao primeiro parto e o outro para estudo de associações entre PL305 e intervalo de partos. No primeiro caso, foram consideradas as informações contendo concomitantemente PL305 e IPP, de 12.509 vacas, sendo 8.845 puras Gir (70,71 %) e 3.664 mestiças (29,29 %), filhas de touros Gir. No segundo arquivo foram consideradas todas as lactações com causa de encerramento normal, consistindo de 40.549 lactações de 18.966 vacas, puras (86,13 %) e mestiças (13,87 %), e de 16.887 intervalos de parto de 7.329 vacas. As informações usadas neste estudo fazem parte da base de dados do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, trabalho sob execução e coordenação da Embrapa Gado de Leite e ABCGIL. Antes da realização das análises estatísticas, foi avaliada a consistência dos dados para todas as características usadas no estudo, sendo consideradas exclusivamente informações para IPP com duração entre 20 e 66 meses, e para intervalos de parto entre 300 e 730 dias e dados de rebanho-ano de parto com, no mínimo, três registros por característica. Os dados foram analisados usando modelo animal, o método REML e os programas do sistema MTDFREML (Boldman et al., 1995). Para estudo de PL305 e IPP, foi usado um modelo bicaracterístico, contendo PL305 e IPP como variáveis dependentes. As variáveis independentes consideradas no modelo foram os efeitos aleatórios de animal e do erro, para ambas as características, os efeitos fixos de rebanho-ano e mês de nascimento, e composição genética da vaca, para IPP e, rebanho-ano, época de parto e composição genética da vaca, para PL305. Para estudo de PL305 e IP, foi usado procedimento similar, em modelo contendo PL305 e IP como variáveis dependentes, efeitos aleatórios de animal, de meio permanente e do erro. Como efeitos fixos foram considerados rebanho-ano e época de parto e composição genética da vaca, além da idade ao parto como covariável, nos termos linear e quadrático. Estimados os componentes de covariância e as herdabilidades, procedeu-se ao cálculo dos valores genéticos para cada um dos 25.540 animais incluídos na matriz de parentesco. Posteriormente, procedeu-se à análise de correlação de Pearson entre os valores genéticos preditos para PL305, com dados de produção de leite ao primeiro parto, e idade ao primeiro parto e entre os valores genéticos preditos para PL305, considerando-se todas as lactações, e intervalo de partos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 A produção média de leite até 305 dias de lactação, ao primeiro parto, foi de 2.113 ± 901 kg, com duração média de 286 ± 75 dias. A idade média ao primeiro parto foi tardia, 43,6 ± 7,3 meses, mas inferior à estimada por LOBO (1998) em dados de cinco rebanhos da raça Guzerá, no Ceará. A produção média de leite de 40.549 lactações, ajustada à idade adulta, foi de 2.719 ± 1.177 kg, com duração média de 287 ± 76 dias, ou seja, 9,50 kg/vaca/dia; e a média de 16.887 intervalos de partos, de 7.329 vacas, foi de 489 ± 100 dias. Observou-se baixa eficiência reprodutiva nos rebanhos estudados, sugerindo que sejam adotadas medidas de melhorias de manejo, com vistas a reduzir idade média ao primeiro parto e o intervalo de partos entre os rebanhos Gir participantes do projeto. A estimativa de herdabilidade para PL305, ao primeiro parto, foi 0,23 ± 0,03. Considerando-se os dados de todas as lactações, tal estimativa foi 0,23 ± 0,003. Para IPP e IP as herdabilidades estimadas foram 0,32 ± 0,03 e 0,00 ± 0,03, respectivamente. A correlação genética estimada entre PL305, ao primeiro parto, e IPP foi de –0,09, sendo nula entre PL305 e IP. Os resultados indicam que PL305, bem como IPP, respondem à seleção. Já, o intervalo de parto somente poderá ser reduzido por meio de melhorias no manejo sanitário e alimentar dos rebanhos participantes do programa. As estimativas de herdabilidade obtidas neste estudo são similares às encontradas em alguns estudos reportados na literatura (Lobo, 1988; Mercadante et al., 1996). No entanto, Wenceslau (2000) encontrou estimativa de herdabilidade superior, igual a 0,56 para IPP em estudos com 573 lactações de vacas puras da raça Gir, filhas de touros em teste de progênie. Segundo o autor, o resultado obtido indica que a variância genética aditiva estimada era suficiente para obtenção de resposta à seleção para menor idade ao primeiro parto. Os valores genéticos para PL305, oscilaram de –703 a 1398 kg para fêmeas e de –562 a 964 kg para machos. Para IPP estes valores oscilarem de -12.7 a 7.4 meses e para IP de –78 a 64 dias. Observa-se que existe uma ampla variação entre os valores genéticos dos animais, especialmente para PL305 e IPP, indicando que existem grandes e consistentes possibilidades de se intensificar os trabalhos de seleção nos rebanhos Gir leiteiro participantes do PNMGL, visando ampliar o ganho genético por geração.

CONCLUSÕES

 A seleção visando o aumento da produção de leite até 305 dias de lactação não contribui para a redução da idade ao primeiro parto. Um melhor manejo alimentar e sanitário é desejável entre os rebanhos, objeto deste estudo, com vistas à redução dos longos Intervalos de parto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 1.BALAINE, D.S. Phenotypic and genetic parameters of some economic traits in Haryana cattle. Ind. Dairy Sci., v. 24, n. 1, 25-31, 1971.

2.BOLDMAN, K.G.; KRIESE, L.A.; VAN VLECK, L.D. et al. A manual for use of MTDFREML. A set of programs to obtain estimative of cariances and covariances [DRAFT]. Lincols: USDA/ARS, 120p, 1971.

3.LÔBO, R.N.B.. Genetic parameters for reproductive traits of zebu cows in semi-arid region of Brazil. Livestock Production Science, v. 55. p. 245-248, 1998.

4. MERCADANTE, M.E.Z., LOBO, R.B., de Los BORJAS, A.R., BEZERRA, L.A.F., OLIVEIRA, H.N. Genetic quantitative study of reproduction and production traits in female of Nelore breed. In. Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 33, Anais…, Fortaleza, Ceará, 1, p. 155-157. 1996

5.WENCESLAU, A.A.; LOPES, P.S.; TEODORO, R.L.; VERNEQUE, R.S.; EUCLYDES, R.F.; FERREIRA, W.J.; SILVA, M.A. Estimação de parâmetros genéticos e medidas de conformação, produção de leite e idade ao primeiro parto em vacas da raça Gir Leiteiro. Rev. Bras. Zootec., v. 29, n. 1, 153-158, 2000.

* Publicado na 42ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, realizada de 25 a 28 de Julho de 2005 em Goiânia - GO.